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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O legado centenário de Herculano

Heloísa Pires
(final)

RIE - Herculano é conhecido como defensor da coerência doutrinária, muitas vezes tecendo críticas em relação a obras e práticas que mistificavam os conceitos do Espiritismo. Como vocês analisam o mercado editorial espírita hoje?
Heloisa - O planeta Terra vive uma época confusa, de transição, de mudança e várias editoras acabaram descobrindo um filão de ouro: os livros espíritas e espiritualistas. Nosso objetivo na casa espírita é orientar as pessoas para que leiam, mas de um modo seletivo. Não sei se seria uma  ideia ditatorial, mas eu até gostaria de que nas livrarias das casas espíritas bem conduzidas não entrassem certas obras. Há livros que fazem um "endeusamento do mal", sem mostrar a força do bem. Esse tipo de livro não é espírita, mas explroa o mal com o objetivo de ser vendável, assim como fazem os desenhos animados japoneses com monstros.
Wilson - Outro problema, agora no sentido contrário, são os livros importantes que não constam das livrarias. Ademais, nessa área editorial em que o Herculano militou, ele não só era um crítico severo das obras doutrinárias como também da sua apresentação. Os livros espíritas costumavam ser feios, mal acabados, mal impressos, com papel ruim, capas deprimentes e ele chamava a atenção para a necessidade de cuidar da apresentação, para valorizar as obras e a Doutrina. Creio que a ausência física do Herculano abriu as portas para escritores que na época em que ele estava vivo, não publicariam seus livros tão tranquilamente, porque ele viria a público para combatê-los em nome da verdade.


RIE - Quais obras de Herculano Pires vocês consideram as mais importantes? Quais lançamentos estão sendo trabalhados?

Heloísa - Todas. Eu, particularmente, amo O Mistério do Ser ante a Dor e a Morte, porque explica que os desafios e os sofrimentos nçao são condenações divinas, mas criações do próprio indivíduo, que julga a si mesmo.
Wilson - É importante salientar que a fundação não está trabalhando apenas no lançamento das obras de Herculano em português.  Muitas delas estão sendo traduzidas para outras línguas, não só o inglês, com a finalidade de atingir europeus, norte-americanos, asiáticos, pois essas obras têm grande importância dentro da Doutrina Espírita. Há um trabalho intenso nesse sentido.


RIE - Sabemos que Herculano Pires foi amigo e colaborador de Chico Xavier, ambos tendo inclusive escritos livros juntos. Como era a relação entre eles?

Heloísa - Os dois eram amigos e se respeitavam; seus pensamentos eram ao mesmo tempo muitos diferentes e muito semelhantes. Chico era médium, representava amor, retidão moral, era um Espírito nobre. Herculano era um crítico, tinha inspiração, mas era um pesquisador.
Wilson - O Herculano dava um apoio muito grande a esses médiuns que reconhecidamente realizavam um trabalho importante no meio espírita. Ele cobrava coragem dos espíritas, a coragem que ele mesmo demonstrava, por exemplo, ao assumir José Arigó. Muitos espíritas temiam fazer isso, mas Herculano assumiu, estudou e lutou para que o trabalho de Arigó fosse respeitado e estudado no meio espírita. Com Chico Xavier, Herculano trabalhou em várias obras e era um complemento ao conhecimento doutrinário de Chico.

RIE - Falando sobre a coragem de Herculano, houve um episódio em que ele defendeu o jornalista Vladimir Herzog.
Heloísa - Herculano era presidente do Sindicato dos Jornalistas Espíritas quando o Vladimir Herzog foi torturado e morto durante a ditadura militar no Brasil. Ele escreveu uma carta defendendo Herzog, dizendo que não se podia prender, torturar e matar em nome de ideias.
Wilson - Quando do episódio da prisão e morte de Vladimir Herzog, Herculano escreveu uma carta
ao então presidente do Sindicato, Audálio Dantas, pedindo que a instituição não se calasse e tomasse providências em defesa de Herzog.

RIE - Para encerrar, há alguma poesia marcante de Herculano para vocês?
Heloísa - Há uma poesia linda que fala sobre a morte. "Não procures no túmulo vazio / a alma querida que deixou a Terra. / A morte encerra a vida e a vida encerra a morte / como eterno desafio. / Ninguém fica no túmulo sombrio / onde somente o corpo é que se enterra./ A alma se eleva além da vida e erra / em mares de bonança e de amavio./ Busca no céu, nos ares, no infinito / na quinta dimensão, no firmamento,/ o ser querido que te deixa aflito./ Hás de encontrá-lo quando, num momento,/ rompendo as ilusões do teu conflito,/ possas falar-lhe pelo pensamento.

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